Jornal Folha de S. Paulo, 07 de maio de 2018, ilustrada, Luiz Felipe Pondé

A Operação Thunderbolt mostrou que Israel tem capacidade operacional global

Lembro-me bem de que na época em que se falava em primavera árabe, na virada de 2010 pra 2011, um “especialista” escreveu nalgum lugar que Tel Aviv era um resto da Guerra Fria e que, portanto, estava condenada à extinção na era Obama e da primavera árabe.

Afora o fato de que todos os intelectuais que tiveram orgasmos com a falsa primavera árabe deveriam agora escrever artigos dizendo o quão risíveis foram ao escrever à época aqueles textos equivocados, a realidade é que a tal primavera árabe deu no Estado Islâmico, na guerra da Síria, numa ditadura ainda pior no Egito e na destruição da Líbia.

Erraram feio. Não só a primavera árabe foi uma revolução fake como Tel Aviv está mais forte do que nunca, mais rica (um dos maiores lugares para start-ups no mundo), mais bonita, mais viva culturalmente, mais militarmente preparada.

Ilustração
Ricardo Cammarota/Folhapress

Quanto à Guerra Fria, ela acaba de recomeçar. Rússia, China e EUA estão em claro processo de tensão geopolítica com a escalada agressiva da relação entre indústria militar, inteligência artificial (algoritmos), mídias sociais e espionagem.

Esquecem muitos desses especialistas que “Guerra Fria” foi o nome específico para um fenômeno clássico em geopolítica que é a “paz armada” entre estados em competição por poder político e econômico.

Por que muitos intelectuais erram tanto em entender o mundo? Afora vaidades, muitos de nós sofrem da síndrome hegeliano-marxista de achar que o mundo segue uma ordem. Não. O mundo não está indo pra lugar nenhum.

Falta a muitos de nós a humildade diante da contingência, a imaginação da contingência. E, por isso mesmo, não percebemos que o mundo não tem nenhum sentido em especial em seus processos.

Pensássemos em termos de longas narrativas permeadas por contingências, um pouco como pensava Tolstói (1828-1910) em sua teoria da história, erraríamos menos, talvez.

O filme “7 Dias em Entebbe”, de José Padilha, é muito melhor do que todos esses artigos primaveris sobre o Oriente Médio. Captura como poucos no mundo das artes (quase sempre infantil) o que é um estado de guerra contínuo, entre israelenses e palestinos, permeado por episódios de violência específicos.

Seu foco é o sequestro de um voo da Air France em julho de 1976 por terroristas —ou “guerrilheiros da liberdade”, como se autodenominavam os alemães do Baader-Meinhof, aliados dos terroristas/guerrilheiros palestinos—, e a estratégia de resgate dos reféns pelo exército israelense (Operação Thunderbolt) no aeroporto de Entebbe, em Uganda.

A Operação Thunderbolt foi um divisor de águas. Com ela, Israel mostrou que sua capacidade operacional é global.

O Baader-Meinhof, fundado em 1970, era um resquício dos movimentos terroristas violentos do século 19 europeu, que se arrastaram até os anos 1980. Como todo grupo de esquerda à época, se alimentou dos soviéticos e dos maoístas.

Como bem diz um dos guerrilheiros/terroristas palestinos a Wilfred Böse, colega alemão do Baader-Meinhof e líder do sequestro do avião, ele era um europeu rico perdido numa guerra que faz sentido apenas para judeus e palestinos.

Böse é um protótipo, ainda que mais verdadeiro, dos revolucionários queijos e vinhos de hoje em dia. Era um editor brincando de guerreiro.

Entre as várias qualidades estéticas e narrativas do filme, a apresentação das tensões decorrentes do fato de que os dois lados (israelenses e palestinos) “têm razão” é enriquecida com uma psicologia dos terroristas mais profunda do que se vê comumente. Isso é o que alguns equivocados entendem como defesa dos terroristas.

Israel é um estado moderno dentro de um espaço de relações pré-modernas, tanto econômicas quanto políticas e sociais (os estados árabes). O atraso desse espaço, com o tempo, se despedaçou contra a capacidade ocidental de organização típica do estado israelense.

Israel é um pedaço da Europa no meio do Oriente Médio. Seus governantes não esmagam a sua população, não a bombardeiam e não a matam de fome. É um caso particular de prova de força da democracia e da sociedade de mercado contra regimes autoritários e de economia monotemática.

A cada vez que palestinos fizerem manifestação na fronteira de Gaza com Israel, os israelenses vão atirar para matar. Com mimimi ou sem mimimi.

Guerra não é um debate sobre cinema e intolerância, realizado num espaço de lazer para ocidentais entediados. Israel só sobrevive porque é mais forte. Todo israelense sabe disso.